mbrettas


09/09/08


Men's Health (parte 1)

Publico abaixo, em duas partes, reportagem que escrevi e saiu em sete páginas na edição de agosto da Men's Health, revista da Editora Abril, contando um pouco dos perrengues que enfrentei nesses últimos meses...

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Ele foi operar um câncer e passou 72 dias no Hospital , 31 deles na UTI
O pós-operatório complicou: ele correu risco de ter as pernas amputadas e teve complicações nos rins e pulmões
Hoje? Segue trabalhando com todo o gás e acelerando sua moto a 300km/h

‘A MORTE SORRIU PRA MIM"
O jornalista Marcelo Brettas desceu ao inferno preso numa cama de hospital. Chegou a ouvir dos médicos que morreria em horas. Aqui, ele conta sua dolorosa jornada e as lições que tirou para voltar a viver a mil

…72 HORAS ANTES,
manhã normal.
Seis da manhã. Sol tímido. Como granola, pego a raquete e a bicicleta e pedalo. Jogo duas horas de tênis. Um bom gole de água, um pouco de conversa e uma nova pedalada de volta pra casa. Moro (e trabalho) num condomínio fechado a cerca de 15 quilômetros de São Paulo, numa casa com piscina e sauna, cheia de varandas e vidro por todos os cantos, com vista para a mata. Depois do tênis, das pedaladas e de um bom banho, desço apenas um lance de escadas até meu escritório. É minha rotina diária. Nada do terno e gravata que engoli durante anos atuando como dono de editora de revistas. Começo por volta das 10h da manhã e defino a rotina diária de trabalho, que muitas vezes pode se estender madrugada afora. Tenho uma obrigação fixa que é editar a revista Motos, para o grupo Quatro Rodas, da Editora Abril. Edito outra sobre vinho e colaboro com diversas publicações. Quando sobra tempo, dedico a meu blog.
Naquela manhã, me preparando para o banho, sentei distraidamente no vaso sanitário. Antes de puxar a descarga resolvi olhar as fezes, hábito que nunca tive. Não gostei daquele filete de sangue e tampouco de constatar que ele se repetiu nas fezes da tarde. Marquei um médico para a manhã seguinte –para minha surpresa, já que fujo dos profissionais de branco. O médico do convênio ainda tentou me tranquilizar: “Pela sua aparência e total falta de antecedentes clínicos, não dever ser nada, você deve estar com hemorróidas internas.” Saí iludido e com o pedido para fazer uma retossigmoidoscopia. Como é mesmo?
… 36 HORAS ANTES,
noite estrelada.
Alguma coisa me incomodava. Naquela noite dávamos uma festa em casa, aniversário da Julia, minha filha do meio, misturado com festa junina. Na tradicional andança de roda em roda sentei por alguns momentos em uma grande mesa redonda, repleta de bons amigos, mais jovens, profissionais de saúde que trabalham com minha mulher, Viviane, psicóloga. Comentei com o Teté e com sua mulher Betânia, amantes das boas viagens e com quem combinávamos uma caminhada pela Ilha Grande, em Angra, do tal sangue nas fezes. Naquele momento nem levei em conta que o Teté é também o Dr. Marcelo Simas de Lima, especialista em cirurgias gastro-intestinais. Ele puxou a cadeira, fez uma série de perguntas, pediu mais vinho, colocou no rosto uma expressão de preocupação. Teté pediu que eu ligasse assim que tivesse o resultado do exame.
Ele tentou agir normalmente pelo resto da noite, eu também, mas algo seguia me incomodando. Não sentia dor, tampouco perdera peso. Minha energia seguia normal, muito superior à maioria das pessoas de 51 anos que eu conheço. Eu continuava correndo nas quadras de tênis como se fosse um garotão de vinte e poucos e pedalava todos os dias. Em alguns finais de semana chegava a superar a marca de 150 km de pedal em um único dia. Isso, sem contar, que pilotava motos a mais de 300 km/h e dava meus saltos no motocross. Mas aquele tal filete de sangue teimava em sair junto com as fezes. Naquele momento só conseguia pensar em como era forte e em como jamais havia precisado de médicos.

… 50 MINUTOS ANTES,
brisa suave.
Subo na moto, e acontece comigo o mesmo processo químico de sempre: um coquetel de endorfina, adrenalina e mais uma centena de substâncias ligadas ao prazer e ao perigo, que me fazem esquecer qualquer ensinamento zen.
Naquela manhã estava calmo, havia marcado a tal retossigmoidoscopia para as 10h e a consulta com o médico do convênio para três horas depois. Cheguei sozinho à clínica. Procedimentos de praxe e logo uma bonita enfermeira sorridente me conduz a uma sala onde outra enfermeira, mais bonita, se junta a ela. Uma delas pede que eu me dispa e coloque um minúsculo avental, com um enorme buraco atrás. Delicadamente, pediu para eu deitar de lado, enquanto a outra pedia licença e passava gel na região.
Eu já estava imaginando todo o tipo de fantasias com as duas enfermeiras, quando uma delas sentencia: “Doutor, ele já está pronto”. Abro os olhos e o tal “doutor” era um baixinho, com aspecto sujo e cara de carniceiro. Falou um bom-dia sem sal nem açúcar e foi fazendo perguntas. Logo ele estava do outro lado, disparando uma frase incompleta: “Eu vou soltar um pouco de ar…” Nem chegou a falar “comprimido”: eu o estava sentindo na pele, ou melhor, nas minhas mais sagradas entranhas.
O tal homenzinho enfiou a câmara em minha bunda e começou a reclamar que eu não havia feito a preparação corretamente. Senti vontade de vomitar, lembrando do supositório e das horas que passei no vaso sanitário botando minhas tripas para fora. Antes que minha raiva aumentasse, ele berrou: “Achei”. Toda aquela comemoração, eu saberia em segundos, era por ele ter encontrado o tal tumor. Ele disse que eu deveria conversar com o meu médico, mas não restava dúvida: era maligno. Ele perguntou se eu tinha filhos, irmãos, pais vivos… eu ia conssentindo com a cabeça e ele se apressando em dizer que todos deviam fazer esse mesmo exame, já que esse tipo de tumor pode ser genético.
Estava atordoado. O médico pediu para as enfermeiras, que eu já nem achava tão gostosas assim, me darem alguns papéis-toalha para a limpeza. Ele me mandou aguardar na recepção pelo resultado impresso do exame e sumiu, enquanto eu juntava forças para levantar a calça ante o olhar indiferente das enfermeiras.
Caminhei em direção à porta sem sentir as minhas pernas. Ao fundo pude ainda ouvir uma delas dizendo: “Se precisar tem um banheiro no meio do corredor”. Sentei na privada e chorei compulsivamente. Senti vontade de vomitar.

… 15 MINUTOS DEPOIS,
começa a chover.
Todo o filme da minha vida passou a girar com incrível rapidez pela cabeça. Minha mulher e meus filhos não saíam do pensamento. Quando consegui me refazer, peguei o telefone e liguei pra Vivi. Falei uma única frase, com a voz baixa e embaralhada:
“Vi, estou com câncer. O cara que fez o exame achou um tumor e garante: é maligno!”
Catatonicamente peguei o resultado, coloquei na mochila sem ao menos dar uma olhada, liguei a moto e lenta e sem a menor concentração nas coisas do trânsito segui em direção ao consultório do médico do convênio. Não lembro nada desse percurso. Seguia pensando em tudo de forma acelerada e desordenada.
Cheguei adiantado ao consultório do médico. Quando fui chamado, nem bem havia sentado na cadeira, alguém bate bruscamente na porta. Vivi entra esbaforida. Ela seria presença constante e fundamental dali para a frente. Vivi me deu um beijo, fez um pequeno carinho em minha rala cabeleira e passou a olhar fixamente para o médico que já lia o resultado do exame.
“Veja só, demos um tiro para acertar em hemorróidas e acabamos pegando um pássaro bem maior!”, disse ele, logo emendando: “Você está mesmo com um tumor de aspecto maligno e não resta dúvida de que o procedimento é cirúrgico”.
Ainda tentei formular algumas perguntas e sinto que a Vivi também, mas nem o jornalista nem a psicóloga funcionaram naquele momento. O médico me aconselhou a procurar a equipe de cirurgia oncológica do convênio, que solicitaria uma bateria de exames e depois marcaria a cirurgia, algo que deveria acontecer em aproximadamente 40 dias. “Doutor, 40 dias não é muito tempo?”, arrisquei. “É impossível saber há quanto tempo você tem esse tumor, portanto não serão 40 dias que farão diferença”, disse.
Voltamos pra casa. A Vivi de carro e eu de moto. Cruzei a porta pronto para dar a notícia aos meus filhos, pelo menos para dois deles: a mais velha, Gabi, de 21 anos, e o caçula, Theo, de 15. A Julia, a filha do meio, 19 anos, estava no interior, distante quase 500 quilômetros da capital, onde estuda psicologia, como a mãe, e deixei para contar a ela no final de semana, quando estaria em casa. Os três se mostrariam parceiros incríveis em todo esse processo e outro porto seguro no qual eu me amarrei com todas as forças.
No meio da tarde liguei para o Teté, ou melhor, dr. Marcelo Simas, e li o resultado do exame. Não se abalou. Foi extremamente pragmático, mas ao mesmo tempo mostrou o quanto estava envolvido com o meu processo de cura: “Eu queria ver esse colega falar que 40 dias não são importantes se o paciente em questão fosse o pai ou o filho dele”, disse. E prosseguiu: “Como você sabe, não atendo pelo seu convênio, mas posso te internar pelo SUS em um dos hospitais onde atendo e te operar eu mesmo. Dê uma pensada e depois conversamos!”
Faziam menos de cinco horas que eu recebera aquela notícia e já precisava tomar decisões dessa importância. Confesso que me internar pelo SUS era algo que não me animava, tendo na memória algumas cenas exibidas em diferentes reportagens sobre as condições, ou melhor, falta de condições dos hospitais que atendem gratuitamente nossa população. O outro motivo era ético: afinal ainda morava em uma casa gigante e tinha remorsos de poder estar tirando a vaga de alguém que necessitasse mais do que eu. Essa eu logo tirei de letra, afinal não havia mais nenhum carro importado em nossa garagem e sim um pequeno veículo já bem viajado; a casa inteira precisando de manutenção e as contas bancárias há muitos anos trabalhando no limite do cheque especial – sem contar as que sofreram bloqueios judiciais depois da falência de minha editora. Mas, se havia questões que me faziam declinar da oferta que fizera o Teté minutos antes, a possibilidade de operar com o dr. Marcelo Simas, profissional competente e conhecido meu e de minha família, capaz de passar as informações e o carinho que são fundamentais nesse momento, me levou a pegar o telefone e ligar para ele antes que o sol sumisse.
Pouco tempo depois, nova ligação do Teté. “Faremos os exames de uma vez, lá no hospital. Operamos daqui uma semana.”
Desliguei o telefone, enchi o pulmão e, naquele momento, decidi que o câncer não iria me vencer. Iniciei uma escalada maluca de trabalho e de preparação, pois, mesmo com o Teté me garantindo que em poucos dias eu voltaria para casa, eu queria deixar tudo resolvido.

Escrito por Marcelo Brettas às 10:00:15
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Mens's Health (parte 2)


… HORAS DEPOIS,
chuva intermitente.
As primeiras providências foram profissionais. Liguei para o jornalista Dudu Viotti, dono de editora, e colaborador da revista Motos que eu edito. Cheguei a sua sala e não consegui falar. Disparei a chorar. Por fim, pedi para ele editar a revista para mim. Irmão, aceitou meu apelo. Depois fui falar com o diretor da Quatro Rodas, Sergio Berezovsky, o Berê. Ia explicar tudo com clareza e definir, profissionalmente, os passos a serem dados. Cruzei a enorme sala da redação da revista, livre de divisórias, sem cumprimentar ninguém. Segundos depois lá estava eu desabando e pronunciando frases desconexas. A redação parou constrangida. Tentei me recuperar, mas foi um desastre. Essa foi a última vez que chorei copiosamente por causa do câncer. Não que eu tenha parado de chorar, longe disso, sou incorrigível, mas aquele choro era diferente, fazia parte de um processo de desmontagem pelo qual já passei algumas vezes em minha vida. Sempre que tenho um problema muito grande me permito ir até o fundo, colocar todas as entranhas para fora a e aí busco o que há de bom por trás de tudo aquilo que estou passando.

… 48 HORAS DEPOIS, vento forte.
Voltei de minha atribulada visita ao Dudu e ao Berê bem mais aliviado. No banho, juntei todos os meus cacos e iniciei um processo de reconstrução. Naquele momento tinha a certeza de que essa era uma nova e grande luta: a luta pela minha própria vida. Passei a ter a segurança e a certeza dos passos que precisava tomar. O primeiro deles é que a rotina de todos em nossa casa deveria prosseguir da forma mais normal possível. Na manhã seguinte, parti para o hospital xxxxxxx. Surpreendentemente, nada de filas, nada de macas pelos corredores, tudo limpo, muitos sorrisos, equipamentos modernos e um atendimento exemplar. Começo a bateria de exames. Entre uma cirurgia e outra, o dr. Marcelo passa para me visitar e tranquilizar. A simpática enfermeira traz um jarro com dois litros de um líquido que mais parece água sanitária e pede que eu tome um copo a cada dez minutos e que fique deitado em um leito da emergência sem urinar.
O tempo foi passando e a cada novo copo as minha pernas se fechando mais. A vontade de urinar já era insuportável. Eu tentava argumentar com a enfermeira que estava prestes a causar um problema para a equipe de limpeza, mas ela dizia que eu precisava agüentar. De repente o Teté entrou, se assustou com a minha expressão e perguntou o que estava acontecendo. Nesse momento as palavras já saíam com dificuldade mas eu consegui falar sem derramar uma gota sequer. Ele riu e disse: “Você consegue urinar um pouco e guardar um outro tanto?”
Acho que eu nem cheguei a responder e já estava lá ouvindo aquele som maravilhoso de cachoeira a despencar. Foi duro parar, mas promessa é promessa, e percebi como é bom ter um médico amigo nessas horas…
De volta em casa, cheguei falando animadamente sobre o hospital. Não tinha mais dúvidas sobre onde e por quem queria ser operado.
Os dias seguintes foram puro trabalho. Entreguei todos os “frilas” (reportagens freelances), escrevi, escrevi, escrevi, telefonei, passei centenas de e-mails, conversei com advogados, redigi procurações, tentei deixar a minha vida completamente resolvida. Em determinado momento, Berê pediu que eu parasse de escrever e cuidasse um pouco de mim.
Em nenhum momento usei a doença e nem permiti que me tratassem como coitadinho, mas, por outro lado, nunca escondi que estava doente e tampouco os meus momentos de fragilidade. Na véspera de me internar para a cirurgia preparei uma lista, com pouco mais de 100 nomes e enviei-lhes um e-mail avisando sobre os fatos. Escrevi: “Com isso, alivio um pouco os telefonemas para a minha mulher (Vivi) e para meus filhos (Gabi, Julia e Theo), que passarão do meu e-mail notícias para vocês e que também atenderão o meu celular”. Ao final, concluí: “Espero vê-los, em breve, nas redações, mesas de boteco ou saboreando uma boa taça de vinho”.
Muitos da lista passaram a enviar notícias para outras pessoas e logo estava formada uma rede com mais de 500 amigos, conhecidos ou simplesmente amigos do amigo do amigo, mas que passaram a receber informações e enviar boas energias, de diferentes crenças e formas. Sempre muito bem-vindas…

NA NOITE DE 3 DE JULHO,
7 DIAS DEPOIS. Chove forte...
Sei lá, algo me dizia que estaria afastado por meses e não por dias como previsto. Certas coisas sabemos, sem ao menos imaginar por quê. Sabemos e ponto. Dias antes da cirurgia eu havia dito para Vivi que não temia a cirurgia do câncer, mas sim a entubação e os problemas de circulação nas mãos e pernas. Fui com Vivi para o hospital. Logo que chegamos ao quarto, ela foi convidada a se retirar. Horas mais tarde, raspei todos os pêlos indicados pela enfermeira, tomei banho. Relaxei e me preparei para a primeira entrada, como paciente, em um centro cirúrgico. Já havia entrado outras três vezes, mas sempre para celebrar o nascimento dos meus filhos.
Apaguei já na injeção de pré-anestésico.
Quando acordei fiquei sabendo que a equipe sofreu durante horas para me entubar. Conheci também alguns detalhes sobre os procedimentos da cirurgia: todos os órgãos da região abdominal foram retirados e colocados sobre a “bancada” até a equipe chegar ao intestino, que foi encurtado em alguns centímetros para a retirada do tumor. Isso feito, os orgãos foram recolocados e seria fundamental que eu voltasse logo a caminhar para eles se reorganizarem.
Tirando a entubação, a cirurgia foi tão tranqüila que nem foi necessária a prevista e temida colostomia – desvio do intestino para uma nova saída aberta na lateral da barriga, onde são fixadas bolsas plásticas para receber as fezes.
Com os efeitos da anestesia cedendo, acordei e dormi diversas vezes em pequenos intervalos. Quando finalmente consegui me firmar por um período maior com os olhos abertos, ouvi a voz do doutor Teté perguntando se estava tudo bem. “Tudo certo, só que estou sentindo uma pressão muito forte nas pernas”, respondi.
Voltei a notar um ar de grande preocupação em seu olhar e logo ele deixou a UTI para retornar minutos mais tarde acompanhado de outros médicos e de um cirurgião vascular. Depois de alguns exames eles tinham o veredicto: eu estava com Síndrome Compartimental, uma doença rara, com apenas dois casos anteriores registrados no Hospital das Clínicas de São Paulo e mais freqüente em maratonistas e ciclistas, que têm uma panturrilha avantajada. Se a vida de esportista contribuía para o aparecimento dessa nova doença, ela se mostraria também grande aliada no processo da minha sobrevivência.
A tal doença era a responsável pela pressão que eu sentia nas pernas, algo progressivo e que, se não fosse notada, levaria, em poucos dias, à amputação das duas pernas. Não há remédio para combater a Síndrome. Haveria de se fazer um procedimento cirúrgico, de conseqüências previstas e nada animadoras, em que seriam feitas quatro incisões, nas duas laterais das pernas, começando pouco acima do tornozelo e terminando próximas aos joelhos. Esses cortes aliviariam a pressão, mas por outro lado liberariam uma toxina que atacaria de forma brutal os meus rins, deixando os músculos e nervos de minhas pernas completamente à mostra.

… NOVE DIAS DEPOIS, trovoadas.
As previsões se concretizaram, infelizmente. Minhas pernas ficaram gigantescas, com os músculos, nervos e veias saltando para fora. Pude conhecer, verdadeiramente, o meu “eu” interior, e a imagem que tinha era idêntica àquela das ilustrações dos livros de anatomia dos tempos de ginásio. A toxina liberada mostrava sua cara levando meus rins a apresentarem sinais de falência. Logo chegou à UTI um equipamento novo, cheio de mangueiras saindo por todos os lados, que se ligariam diversas vezes ao meu corpo para intermináveis sessões de hemodiálise.
Para tentar salvar os rins passei a tomar cerca de 20 litros de soro diários. Fui inchando e não demorei a ficar com a cara do Shrek e as mãos da Fiona e, como conseqüência, logo estava de volta à sala de cirurgia para reoperar o intestino, já que a primeira cirurgia ficara comprometida pela enorme dosagem de soro.
Voltei dessa cirurgia com as pernas abertas, com uma incômoda bolsa de colostomia no lado esquerdo da barriga, entubado, respirando por aparelhos, febre alta, muita cortisona na veia e água nos pulmões, que passaram a ser constante e dolorosamente aspiradas.
Os músculos, nervos e veias das pernas ficavam expostos aos vírus e bactérias que freqüentam as UTIs e centros cirúrgicos em geral, locais que passei a visitar com freqüência para a raspagem de tecidos necrosados que se acumulavam nas pernas. Infecções hospitalares, medicamentos cada vez mais fortes, febres constantes e intensas e sedativos violentos me impediam de falar. Nos horários de visita à UTI, ainda tentava esboçar sorrisos e me comunicar através do olhar e dos grunhidos que emitia entre os tubos que entravam por diversas partes do meu corpo.
Quando me sentia melhor, pedia papel e caneta e, com muito esforço para suportar as toneladas que uma simples esferográfica parecia ter, tentava comunicação com Vivi e nossos filhos.
Me sentia muito fraco, a febre ardia, o sono não vinha ou era interrompido por medicamentos e dolorosas aspirações do pulmão, a morfina se empregnava. As bactérias que aqueciam de forma insuportável o meu corpo escolheram o órgão mais frágil para um ataque final. Novamente os rins foram os eleitos… Dá-lhe mais hemodiálise e o conselho da nefrologista para que eu me conformasse, pois tudo indicava que a minha sobrevida dependeria do uso quase diário desse recurso. Resolvi fechar os olhos.
Sentia a junta médica entrando na UTI, ouvia suas conversas com a equipe de enfermagem e médicos de plantão, permanecia com os olhos cerrados quando se aproximavam… Ouvia conversarem que minhas pernas dificilmente recobrariam os movimentos. Pior, ouvi que meu quadro era crítico e que dificilmente sobreviveria àquela noite. Sem poder dizer nada.

… 20 DIAS DEPOIS, penumbra.
Segui definhando naquela gelada UTI. Todos os dias, via alguém dos nove leitos vizinhos sendo transferido para um apartamento ou pro necrotério. Os dias passavam e a minha hora não chegava. Lembrava das partidas de tênis, das pedaladas, do dia em que decidi abandonar o cigarro após escalar a pedal todos os vulcões da Ilha de Páscoa… A perspectiva de não voltar a andar ou passar uma parte da vida em um leito atrelado a um aparelho de hemodiálise me aterrorizava.
Esperei chegar a noite em que a coordenação do plantão estava com uma enfermeira sorridente e simpática, e lhe comuniquei que morreria naquela madrugada e que para isso deveria ser cumprido um ritual que se iniciava com o apagar de todas as luzes da UTI. Dessa parte nunca saberei discernir o que verdadeiramente ocorreu daquilo que deve ser creditado à febre alta e à alucinação provocada pelos medicamentos, mas o fato é que semanas depois, já lúcido, essa mesma enfermeira me disse que, se elas contassem metade das coisas que acontecem em uma UTI, seriam internadas… Confirmou apenas que, a meu pedido, elas haviam apagado as luzes e que isso seria tudo que eu ouviria de sua boca.
Lembro de tê-la ouvido explicar às outras enfermeiras que eu era médium e que elas deviam atender aos meus pedidos. Uma delas entrou em pânico e disse que iria sair dali senão depois eu puxaria o pé dela… O fato é que medicaram e cuidaram dos outros pacientes, apagaram as luzes e ficaram apenas as duas enfermeiras que eu indiquei: uma para emergência com os demais pacientes e a coordenadora para atender à seqüência de meu ritual, que, confesso, não faço a menor idéia de onde tirei.
As luzes foram apagadas, foi trazida a água com açúcar que pedi, fui colocado na posição que pedi e morri, de forma extremamente dolorosa. Voltei a nascer e morrer sete vezes, cada uma mais dolorosamente que a anterior.
Na manhã seguinte abri os olhos e vi meu bom amigo Teté, dr. Marcelo Simas, colado ao leito e com um sorriso tranqüilizador. Toquei os meus braços, dei uma boa olhada em volta, sorri, tinha a certeza de que encontraria forças para provar que todos os diagnósticos pessimistas não se confirmariam!

… 27 DIAS DEPOIS, o sol brilha.
Rapidamente comecei a melhorar. A infecção foi sendo controlada, a sonda de alimentação e a entubação retiradas, a consciência e o sorriso retornando, o apetite jornalístico também… Passei a seguir com os olhos e ouvidos os passos de todas as enfermeiras e médicos. Sabia o diagnóstico de todos os pacientes: percebia a agressividade do truculento companheiro da bela moça que acabara de tentar o suicídio, via o desespero da mãe do adolescente que levara um tiro de execução, assisti a chegada de flores que enviaram às enfermeiras como agradecimento.
Quando fui melhorando e me aproximando de toda a equipe, pude sentir o lado mais humano da UTI, principalmente nas raras noites de calma. Nessas horas, fala-se besteira, dança-se forró... Enfermeiras se maquiam pela enésima vez, e de manhã parecem estátuas. Me acostumei a ser banhado na cama por elas.
Quando todos na UTI estavam muito ocupados com a rotina de limpeza de pacientes e combate diário à morte, eu ficava acompanhando o movimento das nuvens ou de raras pipas que, vez por outra, passavam pela pequena janela junto ao teto. Bem ao lado dessa “janela” eu percebia letras escondidas sob diversas camadas da brilhante pintura branca. Conforme a luz entrava pela janela, ou dependendo da intensidade das luzes da sala, eu ia distinguindo pedaços de letras. Essa atividade me tomou dias. Memorizava cada trecho e ia juntando ao anteriormente desvendado. Quando finalmente todas as partes se uniram tive a revelação final e a palavra se mostrou completamente: “Buceta”. Lembrei dos longos dias em que já estava isolado, inclusive sexualmente, naquela UTI, e fiquei pensando no que teria na cabeça uma pessoa para escrever tal palavra na parede de um lugar como esse. Já livre da hemodiálise, mas ainda com as pernas inteiramente abertas, fui transferido para um apartamento.

… 80 DIAS DEPOIS, calmaria total.
Os competentes profissionais e bons amigos e amigas que fiz na UTI passaram a me visitar, com freqüência e carinho, nessa minha nova casa.
Os banhos continuavam sendo dados na cama, os pés não tinham movimento e os braços e as pernas zero de força. Estava 25 quilos abaixo dos meus 70 normais e havia perdido toda a massa muscular. Essa foi a fase da paciência, em que você começa a se sentir melhor, mas qualquer evolução é muito lenta. Comecei a fazer fisioterapia, sofrendo para levantar braços e pernas que assumiam pesos inacreditáveis.
A cada novo dia fui pedindo que me dessem alta. Quando isso finalmente aconteceu e fui colocado em uma cadeira de rodas, simplesmente desmaiei. Ao recobrar parcialmente a consciência, pude ouvir o médico dizendo à minha mulher que eu não poderia sair naquele estado. Juntei todas as forças e fiz a melhor representação de minha vida para mostrar que eu estava bem. Fui colocado no carro e atravessei toda a cidade de São Paulo, de leste a oeste, durante horas e no pior momento, pico total de trânsito.
Cheguei em casa em meio a uma grande festa, regada a caipirinha, vinho e cerveja e sabendo que em breve precisaria encarar mais uma luta: a quimioterapia.
A minha casa tem quatro andares e nunca foi pensada para portadores de necessidades especiais. Na primeira noite aceitei ser carregado até o quarto por meus irmãos e outros marmanjos. Na noite seguinte fui carregado em uma cadeira como uma noiva judia. Daí para a frente decidi abandonar a cadeira de rodas e comecei a descer e subir as escadas de bunda e a andar grudado nas paredes, feito lagartixa. Em uma semana, ainda sem nenhum movimento nos pés, pedi que me colocassem em um carro e saí guiando. Mais uma semana e fui colocado sobre uma moto BMW, desenvolvida para um biotipo germânico bem distante dos meus 1,70 metro. Chorei com aquele vento na cara. Chorei por estar vivo.
Dias antes já sofrera bastante para conseguir apertar as teclas do computador e digitar o último comunicado daqueles que meus filhos, durante meses, ajudaram a enviar aos amigos. “Queridos... depois de 72 dias de internação (sem sair da cama), 31 deles na UTI, oito visitas ao centro cirúrgico, finalmente volto para casa... Acho que vocês podem imaginar como eu estou me sentindo.”

…UM ANO DEPOIS, tempo bom
Estou prestes a comemorar o primeiro aniversário da descoberta do tumor. Neste exato momento, devo estar me recuperando de uma nova cirurgia para reversão da colostomia. Depois daqueles 72 dias de hospital ainda enfrentei outros 20 e sofri mais algumas intervenções cirúrgicas por motivos diversos, como a implantação de acessos para receber a quimioterapia. Estou quase 10 quilos acima daqueles 70 que eram o meu peso ideal.
Voltei a trabalhar em ritmo muito mais pesado do que tinha antes. Ainda não pedalo e nem jogo tênis apenas para que a panturrilha não se fortaleça até que eu readquira o máximo dos movimentos dos pés. Mas voltei a acelerar motos a 300 km/h e a saltar de motocross. Procuro levar a vida da forma mais normal possível.

Escrito por Marcelo Brettas às 09:55:05
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